Quem trabalha sob o sol está exposto diariamente a dois riscos principais: o calor excessivo, que pode causar desidratação e mal-estar, e a radiação ultravioleta, que aumenta a possibilidade de queimaduras e danos à pele. A exposição prolongada também pode contribuir para o desenvolvimento de câncer de pele ao longo do tempo.
Os cuidados devem fazer parte da rotina de trabalhadores rurais, pescadores, vendedores, entregadores, profissionais da construção civil, agentes de campo, garis, jardineiros e de qualquer pessoa que exerça atividades em ambientes externos. Em regiões quentes e úmidas, como a Amazônia, a combinação entre temperatura elevada, esforço físico e pouca ventilação pode aumentar o desgaste do organismo.
A prevenção não depende apenas de uma medida isolada. É necessário combinar hidratação, proteção física contra o sol, pausas, planejamento da jornada e atenção aos sintomas. As empresas também devem avaliar os riscos ocupacionais e adotar medidas de prevenção compatíveis com a atividade realizada, conforme as normas de segurança e saúde no trabalho.
1. Beba água ao longo de toda a jornada
A transpiração é uma forma de o corpo controlar a temperatura. Quando a perda de líquidos não é reposta, podem surgir sede intensa, boca seca, fraqueza, tontura, dor de cabeça, cansaço e câimbras. Em situações mais graves, a desidratação pode evoluir para alterações da pressão, confusão mental e perda de consciência.
Por isso, não espere sentir muita sede para beber água. Leve uma garrafa ou utilize um recipiente limpo e abastecido durante o expediente. A ingestão deve ser distribuída ao longo do dia, especialmente antes, durante e depois de atividades que exigem esforço físico.
Água deve ser a principal opção. Bebidas alcoólicas podem favorecer a desidratação e não devem ser usadas para repor líquidos. Pessoas que têm doenças crônicas ou utilizam medicamentos que podem interferir na hidratação, como alguns diuréticos, devem conversar com um profissional de saúde sobre os cuidados adequados.
Em casos de suor intenso, vômitos ou diarreia, a reposição de líquidos e sais pode exigir orientação profissional. Bebidas esportivas ou soluções de reidratação não substituem uma avaliação quando os sintomas são fortes ou persistentes.
2. Use roupas que protejam a pele
Roupas leves, confortáveis e que permitam a ventilação ajudam a reduzir o desconforto térmico. Sempre que possível, dê preferência a peças de cores claras, mangas compridas e tecido que cubra a maior parte do corpo sem dificultar os movimentos.
Chapéus ou bonés com proteção adequada para a cabeça, o rosto e o pescoço também podem diminuir a incidência direta do sol. Óculos escuros com proteção contra radiação ultravioleta ajudam a proteger os olhos, desde que sejam produtos apropriados e utilizados conforme as condições da atividade.
O vestuário precisa ser compatível com o trabalho. Em tarefas que envolvem máquinas, ferramentas, veículos, produtos químicos ou risco de acidentes, a proteção contra o sol não deve substituir os equipamentos de proteção exigidos para aquela função. O trabalhador deve seguir as orientações de segurança da empresa e usar os equipamentos indicados.
3. Aplique protetor solar corretamente
O protetor solar é uma medida complementar à proteção física. Ele deve ser aplicado nas áreas expostas, como rosto, orelhas, pescoço, braços, mãos e pernas, seguindo as instruções do fabricante. A reaplicação é necessária conforme o produto utilizado, principalmente após suor intenso, lavagem da pele ou contato com água.
O uso do produto não permite prolongar a exposição ao sol sem limite. A recomendação é combinar o protetor com roupas adequadas, chapéu, sombra e organização do trabalho. A orientação do Instituto Nacional de Câncer destaca a importância de evitar a exposição direta nos horários de maior intensidade e adotar medidas de proteção contra a radiação ultravioleta.
Quem apresenta manchas que mudam de aparência, feridas que não cicatrizam, sangramentos ou lesões persistentes deve procurar avaliação em uma unidade de saúde. O diagnóstico não deve ser feito apenas pela observação de fotografias ou pela automedicação.
4. Faça pausas em locais protegidos
Pausas regulares permitem que o corpo reduza a temperatura e ajudam a diminuir o risco de exaustão pelo calor. Sempre que possível, os intervalos devem ocorrer em locais com sombra, ventilação e acesso à água potável.
Também pode ser útil alternar tarefas mais pesadas com atividades de menor esforço, desde que isso seja compatível com a organização do trabalho. O horário e o ritmo das atividades devem considerar a temperatura, a umidade, o esforço físico, o uso de roupas ou equipamentos e as condições reais do ambiente.
A NR-09 prevê que a exposição ocupacional ao calor seja reconhecida e avaliada para orientar medidas de prevenção. Na prática, isso significa que a proteção deve considerar a atividade, o tempo de exposição, o esforço realizado e as condições do ambiente, e não apenas a temperatura informada em um aplicativo.
5. Planeje a jornada e observe as condições do tempo
Quando a atividade permitir, tarefas mais pesadas podem ser planejadas para os períodos de menor intensidade de calor. O trabalho deve ser reorganizado diante de alertas de temperaturas extremas, baixa qualidade do ar, fumaça, chuvas intensas ou outras condições que aumentem o risco.
O planejamento também inclui verificar se haverá água suficiente, local de descanso, roupas adequadas, protetor solar e comunicação entre os trabalhadores. Em atividades isoladas ou realizadas em áreas afastadas, é importante que alguém saiba onde a equipe está e possa acionar ajuda rapidamente em caso de emergência.
O risco não existe apenas quando o céu está aberto. Ambientes quentes, úmidos e pouco ventilados também podem provocar doenças relacionadas ao calor. O Ministério da Saúde explica que o golpe de calor pode ocorrer mesmo sem exposição direta ao sol, quando o corpo perde a capacidade de controlar sua temperatura.
6. Reconheça os sinais de exaustão pelo calor
Os primeiros sintomas podem incluir suor excessivo, fraqueza, tontura, náusea, dor de cabeça, câimbras, irritabilidade e sensação de desmaio. A pessoa deve interromper a atividade, ir para um local fresco e ventilado, afrouxar as roupas e iniciar a hidratação se estiver consciente e conseguindo beber.
Não é seguro continuar trabalhando para “terminar a tarefa” quando esses sinais aparecem. O esforço pode agravar rapidamente o quadro, especialmente em dias quentes e úmidos.
Se os sintomas não melhorarem, se houver vômitos persistentes ou se a pessoa apresentar confusão, dificuldade para respirar, desmaio, convulsão, fraqueza intensa ou temperatura corporal muito elevada, é necessário buscar atendimento de emergência. O Ministério da Saúde classifica a insolação como uma condição grave, que pode causar danos ao cérebro, ao coração, aos rins e aos músculos.
7. Saiba o que fazer diante de uma emergência
Ao perceber sinais de insolação ou golpe de calor, retire a pessoa do sol e leve-a para um local fresco, sombreado e ventilado. Remova o excesso de roupas e resfrie o corpo com água fresca, compressas frias ou panos úmidos, enquanto o atendimento é providenciado.
Se a pessoa estiver consciente, pode receber água em pequenos goles. Não ofereça líquidos a alguém desmaiado, confuso, com convulsões ou com dificuldade para engolir, porque existe risco de engasgo. Nesses casos, acione o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência pelo número 192 ou procure imediatamente uma unidade de emergência.
Não deixe a pessoa sozinha e informe à equipe de saúde quais sintomas surgiram, por quanto tempo houve exposição ao calor e se houve esforço físico intenso. Essas informações ajudam na avaliação do quadro.
8. Tenha atenção especial a alguns trabalhadores
Idosos, crianças, pessoas com doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, doenças renais ou outras condições crônicas podem ter maior risco de complicações relacionadas ao calor. O mesmo vale para quem utiliza determinados medicamentos, como diuréticos, antidepressivos, antipsicóticos e remédios que afetam a pressão ou a capacidade de adaptação do organismo ao calor.
Isso não significa suspender medicamentos por conta própria. A orientação é conversar com um médico ou outro profissional de saúde para entender os riscos e ajustar os cuidados. Em caso de dúvida, a unidade básica de saúde pode orientar sobre prevenção, sintomas e necessidade de avaliação.
Checklist para o trabalho sob o sol
- Levar água suficiente e beber ao longo da jornada.
- Usar roupas que cubram a pele, sem comprometer a segurança e os movimentos.
- Proteger a cabeça, o rosto, o pescoço e os olhos.
- Aplicar protetor solar nas áreas expostas e reaplicar conforme a orientação do fabricante.
- Fazer pausas em local sombreado, fresco e ventilado.
- Evitar álcool antes e durante o trabalho.
- Comunicar tontura, náusea, fraqueza, câimbras ou dor de cabeça.
- Interromper a atividade e buscar ajuda diante de confusão mental, desmaio ou convulsão.
Trabalhar sob o sol exige prevenção contínua. A combinação entre proteção da pele, hidratação, pausas, planejamento da jornada e resposta rápida aos sintomas reduz o risco de problemas de saúde. Em caso de sinais intensos ou persistentes, a orientação é procurar atendimento profissional e não retornar à atividade até que a condição seja avaliada.







